A História do Mundo, segundo o
Livro de Ferro
‘’ Há muitas eras, o mundo não
era nada além de uma esfera de barro e pedra vazia, orbitando no vasto e frio
nada. Não havia luz, água ou vento. Não havia vida. Mas um dia Pembuahan Saka Donya,
a Fecundadora de Mundos, a ave de fogo de mil cabeças e dez mil asas e tamanho
de um sol, voando através da imensidão do Vazio, pousou no nosso mundo. Aqui,
como fez em vários outros mundos estéreis, pôs um ovo, E depois foi embora,
para sempre. Este ovo, formado de pura energia cósmica, chocou durante eras, e
um dia, eclodiu.
Dele saíram os deuses, seres de
poder monumental, capazes de dobrar a realidade à sua vontade. Rapidamente dividiram
as tarefas necessárias à sua missão entre si, e começaram a criaram o mundo.
Luxxor, o iluminado, a montanha
de nuvens e luz, assoprou, e assim a superfície do mundo se encheu de ar, as
nuvens e a chuva foram criadas, e por fim ele ascendeu aos céus, se tornando a
Esfera de Luz.
Thálassa, O Implacável, o gigante
de gelo, evaporou e caiu sobre a superfície áspera e dura do mundo, na forma de
água, enchendo suas depressões, e criando os mares e rios, e todas as criaturas
que vivem na água.
Tyrandathus, O
Forte, o gigante de mil braços e pele de pedra, repuxou a superfície do mundo
com sua imensa força, criou as montanhas, criou imensas depressões, tornou o
relevo do mundo irregular, e cunhou a primeira parte da criação, à sua
semelhança: monstros, nos mais variados
tamanhos e formas.
Myka, A Generosa, a árvore andante
que alcançava as nuvens com sua frondosa copa, achou aquele mundo muito
selvagem e brutal, e criou os animais, alguns fracos e inofensivos, outros
fortes e audaciosos, e criou as florestas, onde a vida abundava em todas as
suas formas.
Yasaena, a Culta, achou o mundo
àquele ponto ainda selvagem, sem o dom da inteligência, e tocou sua harpa,
criando assim os elfos. Seres cuja graça, beleza e cultura eram tão vastos que
se equiparavam somente aos deuses. Criaturas imortais. Capazes de manipular com
facilidade as forças arcanas do mundo.
Saggatio, o Sábio Hedonista,
achou a criação de Yasaena sem graça, e tomou par si a tarefa de criar algo
mais desafiante e divertido: criou os anões, seres taciturnos e atarracados, dotados
de um rígido código de honra, e Halflings, pequenos e curiosos como raposas.
Por fim Coronellis, O Grande,
tomou para si a tarefa de finalizar aquele mundo. Criou o céu, vasto e azul,
sobre a cabeça de tudo que existia, dando a sensação de justiça e ordem a todos
aqueles que vivem. E por fim ele batizou aquele mundo. Chamou-o de Karum.
E logo as crias dos deuses
prosperavam, descobriam, cresciam. Descobriram o fogo, a agricultura, a
metalurgia, a civilização e as leis.
E por um tempo, foi bom.
Até que eles chegaram, humanos.
Eram os Kandosh, vindos das
profundezas do Vazio acima do céu, de lugares que até os deuses desconheciam,
com suas imensas máquinas voadoras, propulsionadas por fogo e fuligem, criados
por sua ciência. Eles chegaram à Karum e logo começaram a sua colonização. Exterminaram
as crias de Tyrandathus e Myka em toda a parte norte do mundo, e lá fundaram
seu reino: ergueram torres e muralhas de aço e pedra que alcançam as nuvens,
criaram monumentais máquinas que criavam outras máquinas, alimentadas por
imensas chaminés que cobriam os céus com sua imundice. Rasgaram montanhas em
busca de aço e carvão, e mataram, mataram muito.
Era um povo ruim, não cultuavam
deuses, só a si próprios, suas invenções, avanços e conquistas. Não usavam
magia, em vez disso criavam tecnologias com base em sua ciência, movidos por óleo,
fumaça ou carvão. Matavam as criaturas dos deuses tanto quanto matavam a si próprios,
por ganancia e ódio. Eles não conheciam limites morais ou éticos. Forjavam criaturas
de aço e fuligem, escravos mecânicos que lutavam em suas guerras e edificavam
suas monumentais construções. Faziam experiências terríveis com os espécimes descobertos
no novo mundo em busca de novas doenças e monstros que pudessem usar em suas
guerras, escravizavam e torturavam pelo simples desejo de humilhar.
Os Kandosh logo se espalharam por
outras partes do mundo, sempre em busca de novos recursos para suas industrias,
que logo escasseavam. Em seu expansionismo, descobriram as raças de anões,
halflings e elfos. Sua fé e seus deuses, e odiaram aquilo. E mataram, mataram,
mataram.
Os anões, elfos e halflings, Os
Três Povos, viram seu mundo ser conspurcado pela raça invasora, suas cidades
serem incineradas e seu povo ser escravizado ou apenas exterminado, e reagiram.
Criaram a Coalização, a união militar das três raças ancestrais na tentativa de
pôr um fim àquilo. Criaram um exército de centenas de milhares, dentre os quais
os maiores guerreiros e magos, os mais habilidosos arqueiros e ladinos, os mais
altivos clérigos e cavaleiros, os mais poderosos monstros e criaturas mágicas, e
marcharam rumo ao Reino das Máquinas. Os Kandosh riram daquilo.
Mandaram seus construtos voadores
despejarem fogo e ácido em suas vítimas. Acionaram canhões de gás e pólvora que
matavam aos milhares. Seus autômatos do tamanho de castelos esmagavam e socavam
sem piedade. Em uma hora, a Coalizão estava obliterada. Os Três Povos logo
perceberam o horror que encaravam: aquela raça não podia ser parada, seu poder
era grande demais, seu ímpeto destrutivo era forte demais. Eles destruiriam
tudo.
Então os povos de Karum rezaram,
as árvores e animais suplicaram, os monstros imploraram. Toda a vida de Karum
pediu aos seus deuses que fossem salvos, que aquele povo cruel fosse
aniquilado, que a vida fosse livre novamente.
E os deuses, vendo seus filhos
chorarem, atenderam seus pedidos.
Os deuses, usando seu incrível poder,
criaram os Lordes Dragões, seres de poder imenso, comparável apenas aos eles próprios.
Sete deles foram criados, reluzindo em suas cores cromáticas. Menglong, o
dragão amarelo do poder. Yarostdrakon, o dragão vermelho da fúria. Thanadusdrak,
o dragão negro da morte. Kisajijoka, o dragão verde da vingança. Smakstrah, o
dragão azul do medo. Lohikaarme, o dragão branco do fim. Smoksprawdelivosth, o
dragão prateado da justiça.
Os dragões caíram sobre as titânicas
muralhas Kandosh com a fúria de todos os povos de Karum, e as rasgaram como
papel. Avançaram e trucidaram sem misericórdia. Os Kandosh lutaram, Ou ao menos
tentaram. Usaram seus séculos de experiência em matança e destruição. Mandaram
seus exércitos de seres mecânicos contra os dragões divinos, esvaziaram seus
canhões de chamas e venenos em suas cabeças, detonaram cogumelos de luz e fogo
sob suas silhuetas draconianas.
Nada disso adiantou, os dragões
só pareciam ficar mais raivosos e poderosos à medida em que eram atacados. Os dragões
eram pura energia divina, se recuperavam em questão de segundos de ferimentos
causados por ataques que liquidavam cidades completamente. Seus rugidos estraçalhavam
muralhas de quilômetros de espessura, suas caudas em chicote partiam ao meio
torres que chegavam aos céus, suas baforadas de fogo elemental derretiam
cidades inteiras.
Após sete dias de combate inútil,
que só servia para destruir ainda mais suas próprias cidades, os maiores
generais do Império Máquina desenvolveram sua estratégia mais desesperada:
usariam uma nova arma, cujo poder ainda não era totalmente conhecido, uma bomba
capaz de destruir a própria existência, criando um buraco na realidade. Os Kandosh
não podiam morrer sabendo que foram superados pelos odiados deuses, era melhor
morrer levando o inimigo junto. Armaram a bomba em um mecanóide de combate aéreo
pilotado por seu maior piloto, e este se jogou contra Smoksprawdelivosth, o
líder dos lordes dragões, e ativou a bomba.
O mundo inteiro tremeu com a
explosão.
A detonação incinerou os odiados
dragões. Os Kandosh venceram, mataram seus inimigos, demonstraram a superioridade
de sua tecnologia frente aos deuses, mas a um preço altíssimo: a explosão também
os destruiu, transformou que que sobrara de suas cidades em ruina completa. Os Kandosh
estavam extintos.
Pior: a violência da explosão
abriu um rasgo na realidade, um buraco negro, para outro lugar, um portal para
outro lugar.”
Primeira Parte do Livro de Ferro,
o livro da Criação.
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